Acciona lança dois parques eólicos de R$ 5 bi

Grupo espanhol estreia em geração renovável e prevê ampliar operação deinfraestrutura no Brasil
Por Taís Hirata — De São Paulo
29/11/2021 05h00 ·
Atualizado

Incertezas política e econômica não são barreiras, mas insegurança jurídica preocupa, diz o presidente-executivo globaldo grupo, José Manuel Entrecanales — Foto: Silvia Zamboni/Valor

 

O grupo espanhol Acciona decidiu entrar no mercado de geração de energiarenovável no Brasil. A companhia acaba de adquirir, da Casa dos Ventos, um projetoeólico em desenvolvimento na Bahia, com potência de 850 MW e investimentosprojetados em € 800 milhões (R$ 5 bilhões, na cotação atual).
O empreendimento é composto por dois parques - Sento Sé I e II -, que estão emfase de obtenção de licenças. A expectativa é que a construção tenha início entre ofim de 2022 e começo de 2023. A ideia principal é comercializar a energia porcontratos de longo prazo com clientes.

Trata-se de um primeiro passo da Acciona no setor, mas o objetivo é expandir,segundo José Manuel Entrecanales, presidente-executivo global do grupo, que faloucom o
Valor durante sua visita ao Brasil, na semana passada.

A empresa já tem em mente uma segunda etapa para o projeto de Sento Sé: apossível construção de uma usina solar, em área contígua ao parque eólico, queusaria a mesma estrutura de transmissão. Estima-se que a expansão agregaria mais200 MW de potência e demandaria investimentos adicionais na ordem de R$ 800milhões - em números ainda bastante preliminares.


“Além disso, queremos ver se há novas oportunidades de desenvolvimento conjuntocom a Casa dos Ventos. Há muito que fazer”, diz o presidente.
A Acciona atua no Brasil há mais de 20 anos. Além de obras de grande porte, aempresa chegou a operar por dez anos a concessão da Rodovia do Aço, que foivendida à KT2 em 2018. No ano passado, a companhia voltou ao mercado deconcessões com um grande contrato: a Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo. Oprojeto, inicialmente da Move São Paulo (formada por Odebrecht, Mitsui, UTC e Queiroz Galvão) foi adquirido oficialmente no fim de 2020 pelo grupo espanhol, queirá construir e operar a linha.

 

O plano para a próxima década é ampliar de forma significativa a operação deinfraestrutura no Brasil, segundo Entrecanales. “Este país é um continente. Hávetores de crescimento para todas as áreas de negócio da Acciona: saneamento,tratamento de água, transporte, energia renovável, mobilidade urbana”, diz.
Para o executivo, a projeção é que o mercado brasileiro ultrapassará o europeudentro da empresa nos próximos dez anos e se tornará um dos três principais locaisde atuação do grupo, ao lado dos Estados Unidos e Austrália. “O Brasil se tornouobjetivo essencial dentro da nossa estratégia.”
O cenário de instabilidade política e incerteza macroeconômica não abala ointeresse, segundo Entrecanales. “O Brasil, entre os países em que estamospresentes, é aquele com mais oportunidade de investimento. É um país com altocrescimento, necessidades de infraestrutura infinitas. E há uma organizaçãoinstitucional estável. Há sim oposição e confrontação política alta. Mas é umacaracterística própria de democracias. A solidez institucional do país nos dá muitaconfiança como investidores”, afirma.
O ambiente incerto de curto prazo importa, mas não é determinante. “Em umprojeto de 40 anos, a conjuntura dos primeiros dois, três anos conta, mas não é omais importante.”
Uma variável que preocupa e pode afetar decisões futuras de investimento no país éa segurança jurídica em torno do contrato da Linha 6-Laranja - hoje ameaçado poruma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
Em agosto, uma decisão inesperada do ministro Dias Toffoli abalou o mercado. Eleconsiderou inconstitucional a transferência de concessões de uma empresa paraoutra e, além disso, determinou que fossem desfeitas operações realizadas nessesmoldes - como a compra da concessão do Metrô pela Acciona. Desde que o votoveio à tona, já houve sinais de que esse entendimento pode ser revertido notribunal: o ministro Gilmar Mendes pediu vista, e o próprio Toffoli sinalizou que podealterar o relatório. Porém, o caso segue em aberto.

“Não posso negar que é um fator de preocupação. Há algum risco. Mas osacontecimentos judiciais das últimas semanas, a racionalidade econômica e asalternativas que temos para resolver essa dificuldade me fazem estar razoavelmentetranquilo. Hoje trabalhamos com o cenário de que a situação vai se resolver”, afirmaEntrecanales.
Mesmo com o imbróglio em curso, a sinalização é positiva para novos projetos.Entre os alvos em estudo pela Acciona neste momento estão: o Trem Intercidades(TIC), entre São Paulo e Campinas; leilões de saneamento básico em diversosEstados; a concessão da rodovia BR-381/262, entre Minas Gerais e Espírito Santo;além de um projeto imobiliário em Salvador.
O executivo, porém, destaca os elevados compromissos financeiros já assumidos naLinha 6 e no parque de energia, e diz que será preciso administrar o capital e ir“pouco a pouco”.

O financiamento dos projetos tem sido feito parcialmente com recursos da matriz,na Espanha, e com acesso a crédito do BNDES, no Brasil. No caso do novo projeto deenergia, a estrutura dependerá dos clientes e dos contratos de longo prazo firmados- caso sejam em dólar, o financiamento deverá vir da matriz, e caso seja em reais,um empréstimo local.
Globalmente, a Acciona opera em 60 países e, no passado, faturou € 6,4 bilhões.